quarta-feira, 16 de abril de 2014

A criança e o medo...

As Formas do Medo 

"Sem antes conhecer a si mesmo, torna-se impossível compreender os outros..."



O medo psicológico é sempre acumulativo, pois se trata de um ensinamento, um processo cognitivo, como outro qualquer... 
 
Nosso cérebro foi programado pela natureza para aprender qualquer coisa, assim aprender é simples e fácil, difícil mesmo é largar o aprendizado que já não nos serve, a exemplo dos vícios, das manias, das paranóias.

Claro que criança não nasce com medo, especialmente com as causas, os indutores que suscitam esse medo. Uma forma de suscitar medo, o medo do escuro, por exemplo, possui em seu lastro, toda uma história criada pelos adultos, com quesitos que dizem respeito aos adultos, situações tiradas de suas crenças pessoais, e estes são os mitos, as tradições de todos os tempos, que conceituaram a escuridão como um atributo de coisa ruim.

É como a história da mãe que, não desejando que o filho a desobedeça, se vale da falta de visibilidade que existe na escuridão da noite, e o induz a crer que dali, de dentro das trevas, sairá um Bicho Papão para pegá-lo, caso não se comporte. A partir desse ponto, a simples menção do escuro, já condiciona aquela criança a ter medo, não do escuro, mas das coisas que podem surgir de dentro dele, para lhe fazer mal.

Podemos imaginar uma criança, sua mente, como uma folha de papel em branco, onde qualquer roteiro pode ser escrito. Quando se analisa um comportamento infantil, que tende a acompanhá-la até a fase adulta, a despeito do seu temperamento natural, que a faz sentir-se atraída por algumas coisas e resistir a outras, o que conta mesmo são os estados emocionais que irá extrair do meio onde vive e tomar como guia para a construção de sua personalidade.

E todo esse acervo de estados psicossomáticos já faz parte do mundo, e tudo do que irão precisar para incorporar cada um deles como traço de comportamento, é a identificação com aqueles que melhor se adaptem aos seus temperamentos.

Mas, em muitos casos, a influência da mesologia é tão forte que as próprias idiossincrasias do jovem são anuladas, destruídas, pelo extraordinário poder dos costumes e tradições. Um fanático, qualquer que seja, or exemplo, não tem o fanatismo como atributo do temperamento, uma vez que na natureza não existe tal coisa. Um comportamento desse tipo é uma cria exclusiva de uma mesologia patológica.

Tais práticas, comportamentos, manias, vícios, e outros caracteres, já foram incorporados ao cotidiano dos adultos, aperfeiçoados ao longo de incontáveis gerações, e o que resta a criança agora é absorver tudo isso, sem direito algum à escolha. Podemos escolher por onde caminhar, jamais a aprender a engatinhar, ou enxergar, ou sentir cheiro.

Um dos maiores equívocos dos adultos é julgar a criança a partir de si mesmo. Ele sequer é capaz de compreender que o estado emocional de uma criança ainda está em fase de desenvolvimento, ainda carece de muitas experiências e memórias para, talvez, se equiparar à sua. Mas, a criança já sabe imitar, e isso ela não aprende, é um atributo de berço, faz parte do seu instinto ou temperamento primário. Por isso mesmo poderá tornar-se um mestre da imitação, trabalhar à perfeição essa qualidade que lhe é inata. Desse modo, será capaz de copiar dos adultos a maioria das suas manias, sejam elas inúteis ou úteis.

Quando se tem medo, a primeira reação é tentar evitar a causa desse medo. E a fuga da causa do medo se torna mais importante que o medo em si. Mas, do mesmo modo que a estrutura de um prédio se apóia em seus alicerces, a fuga apenas fortalece esse medo, e esse mesmo processo acaba por se tornar a raiz, a base, da sua existência.

Podemos evitar as causas do medo, mas ele permanecerá em nós amparado pelo meio de fuga. E a fuga se torna uma proteção parcial, ilusória, enquanto o medo em si, continuará a existir, intocado, como se fosse uma coisa sagrada que devesse ser preservada, até do nosso olhar. 

Quando criamos a comparação como medida para classificar coisas e pessoas, criamos também algumas das bases do medo. Então torna-se um objetivo natural o desejo de ser maior e melhor, mais belo, mais inteligente, mais qualquer coisa, e também a ideia de que nosso semelhante é um obstáculo a ser superado, vencido, destruído. E numa disputa, inevitável é que não exista o medo. Medo de não conseguir, de ser superado, de ser inferiorizado, da perda de qualquer coisa.

No momento que recompensamos nossos filhos com elogios fáceis, ou presentes, pelo simples fato de cumprirem suas obrigações ou deveres fundamentais, estamos também incutindo em suas mentes a barganha, a troca de favores, como o único caminho para se conseguir alguma coisa. E a criança não mais verá os outros como seres humanos iguais a si mesmo, mas como simples objetos que podem ser comprados para servir aos seus desejos ou caprichos. Jamais será capaz de respeitar alguém, nem aqueles com os quais possui vínculos, ou algum tipo de dependência.  

"O temperamento de uma criança deve ser considerado e avaliado como fator importante no desenvolvimento de suas qualidades comportamentais..."
O Papa Figo
O que os olhos não podem ver, a mente se encarrega de criar, eis a essência do medo psicológico... 
 
Uma criança aprende a ter medo. Evitar uma conhecida coisa, algo que sabidamente seja capaz de nos causar danos físicos é prudência, é uma estratégia de sobrevivência, é o medo natural, saudável, o único que existe. Criar mentalmente situações que presentemente não existam como ameaças concretas diante de nós, isso é o medo psicológico, trata-se de uma deformação na lógica do pensamento, é o medo virtual, o medo patológico.

As bases desse medo psicológico, isso nos é ensinado, quando nossos pais nos ameaçam para cumprirmos nossas tarefas infantis, ou para nos comportarmos em casa, não fazermos barulho, ou escovarmos os dentes, ou ainda quando somos comparados, ou quando nos exigem mais do que aquilo que temos para dar.

Dessa base inicial, todas as causas de nossos medos são criadas. Da mesma forma que aprendemos a gostar de ganhar presentes, ou elogios, também passamos a temer os opostos dessas coisas. Então nos tornamos mais temerosos, mais inseguros em nossas ações, e nossa criatividade é substituída pelo desejo de imitar. Imitar é mais simples, basta seguir as ordens e direções já traçadas, basta que nunca nos desviemos das normas estabelecidas. Assim, a conformação com qualquer tipo de situação, seja ela má ou boa, é tudo o que mais desejaremos.

Por isso, o temor às críticas, e a constante sensação de que somos observados por um temível censor dos nossos movimentos, capaz de ver até o nosso pensamento, nos impedirá se sermos espontâneos, uma vez que isso pode não ser permitido por "aqueles" que estão à nossa espreita, apenas esperando o momento de nos castigar.

O conflito interior é inevitável, e lutaremos a vida inteira para nos livrar desse observador, desse cobrador insaciável e implacável, que insiste em exigir de nós conformismo, que façamos a sua vontade, nunca a nossa. Nesse cenário, onde o repetir as velhas fórmulas e padrões é mais seguro, não há como existir criatividade. 

Por fim, uma criança pode crescer livre de todos os medos, exceto os saudáveis, que já foram citados antes. Os pais podem cuidar disso, desde que eles próprios sejam capazes de lidar com os seus. Quando estamos dispostos a examinar a estrutura do medo, e não das coisas que nos despertam esse medo, vamos descobrir que se trata apenas de um artifício da mente, uma anomalia em seu funcionamento. Podemos chamar a isso de falta de compreensão, o que poderia ser evitado através de explicações, esclarecimentos qualificados, desmistificações claras, de acordo com o nível de compreensão de cada criança.

Assim, explicar aos filhos através do esclarecimento, desde cedo, como os pais, ou adultos, criamos a maioria das causas dos seus medos, com a única intenção de controlá-los, é de vital importância, e um gesto de coragem e honestidade. Afinal de contas, existem muitas outras formas de conseguirmos disciplinar e colocar ordem nas crianças, sem o uso de tais artimanhas, mais perniciosas que ditosas. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Boa tarde, hj vamos falar do lúdico, de como é importante o lúdico nas brincadeiras infantis...



 
"É no brincar e somente no brincar, que o indivíduo, crianças ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu." (Winnicot, 1975)


               O lúdico é um meio que a criança utiliza para expressar emoções, como: angústia, medo, agressividade e ansiedade. Brincar é essencial na vida da criança, através do brincar a criança está experimentando o mundo, os movimentos e as reações. No brincar a criança tem elementos para desenvolver atividades mais elaboradas no futuro, permite extravasar dos sentimentos, auxilia na reflexão sobre a situação, criando várias alternativas para o desfecho mais satisfatório ao seu ver. 

O brinquedo possui muito das características dos objetos reais, mas, pelo seu tamanho, pelo fato de que a criança exerce domínio sobre tamanho, pelo fato de que a criança exerce domínio sobre ele, pois o adulto outorga-lhe a qualidade de algo próprio e permitindo, transforma-se no instrumento para o domínio de situações penosas, difíceis, traumáticas, que se engendram na relação com os objetos reais. Além disso, o brinquedo é substituível e permite que a criança repita, à vontade, situações prazenteiras e dolorosas que, entretanto, ela por si mesma não pode reproduzir no mundo real.
 
O brinquedo possui muito das características dos objetos reais, mas, pelo seu tamanho, pelo fato de que a criança exerce domínio sobre tamanho, pelo fato de que a criança exerce domínio sobre ele, pois o adulto outorga-lhe a qualidade de algo próprio e permitindo, transforma-se no instrumento para o domínio de situações penosas, difíceis, traumáticas, que se engendram na relação com os objetos reais. Além disso, o brinquedo é substituível e permite que a criança repita, à vontade, situações prazenteiras e dolorosas que, entretanto, ela por si mesma não pode reproduzir no mundo real.


A palavra lúdico vem do latim ludus e significa brincar. Neste estão incluídos jogos, brinquedos e divertimentos e é relativa também à conduta daquele que joga, que brinca e que se diverte. Por sua vez, a função educativa do jogo oportuniza a aprendizagem do indivíduo, seu saber, seu comportamento e sua compreensão de mundo.

A brincadeira é uma parcela importante da vida. As experiências tanto externas como internas podem ser férteis para o adulto, mas para a criança essa riqueza encontra-se principalmente na brincadeira e na fantasia. Tal como as personalidades dos adultos se desenvolvem através de suas experiência da vida, assim a das crianças evoluem por intermédio de suas próprias brincadeiras feitas outras crianças e por adultos. Ao enriquecerem-se, as crianças ampliam gradualmente sua capacidade de exagerar a riqueza do mundo externamente real. A brincadeira é a prova evidente e constante da capacidade criadora, que quer dizer vivência.

Os adultos contribuem, neste ponto, pelo reconhecimento do grande lugar que cabe à brincadeira e pelo ensino de brincadeiras tradicionais, mas sem obstruir nem adulterar a iniciativa própria da criança.


Segundo o dicionário Aurélio, o lúdico vem do latin ludu e significa jogo nele estão contidos: os jogos, brinquedos, divertimentos, passatempos; relativo ao jogo enquanto componente do comportamento humano.

O jogo não suprime, mas canaliza tendências. Por isso a criança que brinca reprime menos que a que tem dificuldades na situação e dramatização dos conflitos através desta atividade. (ABERASTURY, 1982, p. 49).

"Para a criança, a atividade lúdica, o brincar, o jogar constituem sua atividade principal. Ao brincarem elas estão “criando" de acordo com os seus conteúdos internos." (EGLER, 1998)

E no que diz respeito ao adulto? Para D.W.Winnicott, "É na brincadeira, no jogo, na atividade menos conflitiva que o homem evidencia também sua liberdade de criação, e talvez toda a experiência cultural de humano.
           
Nos jogos, cada participante ao assumir a criação e elaboração de seus personagens, torna-se capaz de liberar suas fantasias e crenças. E, como suprema dádiva, neste expressar-se, o passado pode ser reformulado, a serviço da esperança. (EGLER, 1998)

A ludoterapia passou a ser o meio pelo qual as relações ruins da criança seriam recriadas, "consertadas". Através dos jogos e brincadeiras infantis, a criança poderia simbolizar seus problemas, resolvendo-os em um outro contexto”( KISHIMOTO, 1998, p.165).

A ludoterapia permite que a criança expresse seus medos, conflitos e ansiedades, possibilitando (com auxílio do terapeuta) a elaboração destes sentimentos.

Segundo Axline (1989, p. 32), pioneira da ludoterapia numa perspectiva rogeriana,

Ludoterapia não-diretiva... pode ser descrita como uma oportunidade que se oferece à criança para poder crescer sob melhores condições. Sendo o brincar o seu meio natural de auto-expressão é-lhe proporcionada a oportunidade de, brincando, expandir os seus sentimentos acumulados de tensão, frustração, agressividade, medo, espanto e confusão.

Libertando-se destes sentimentos através do brincar, a criança conscientiza-os, enfrenta-os, aprende a controlá-los, ou esquecê-los. Quando atinge uma certa estabilidade emocional, apercebe-se da sua capacidade para se realizar como indivíduo, pensar por si mesma, tornar as suas próprias decisões, tornar-se psicologicamente mais matura e, assim sendo, tornar-se pessoa.

Diz ainda que, a ludoterapia não diretiva baseia-se no pressuposto de que todo o indivíduo possuirá as capacidades necessárias para se educar e desenvolver por si, bem como para ser o próprio a resolver por si os seu problemas e dificuldades.

    A ludoterapia não diretiva permite ao indivíduo ser ele mesmo, aceitar-se completamente, sem avaliação ou pressão para qualquer mudança: reconhece e esclarece as atitudes emocionais expressas pela reflexão do que a criança expressou
( AXILINE, 1989, p. 48 ).

Segundo a abordagem, a ludoterapia permite mostrar que as situações problemáticas contidas na manipulação dos jogos e brincadeiras fazem a criança crescer através da procura de soluções e de alternativas. O desempenho psicomotor da criança enquanto brinca alcança níveis que só mesmo a motivação intrínseca consegue. Ao mesmo tempo favorece a concentração, a atenção, o engajamento e a imaginação. Como conseqüência a criança fica mais calma, relaxada e aprende a pensar, estimulando sua inteligência.


Para Bruner (1976), o jogo, ao ocorrer em situações sem pressão, em atmosfera de familiaridade, segurança emocional e ausência de tensão ou perigo, proporciona condições para a aprendizagem das normas sociais em menor risco. A conduta lúdica oferece oportunidades para experimentar comportamentos que, em situações normais, jamais seriam tentados por medo de erro ou punição.
 
Conforme Klein (1963) diante da dificuldade de verbalizar, o brincar é a linguagem típica da criança, quando falta a palavra, o brincar expressa tudo, e mesmo quando a palavra já tiver sido incorporada a linguagem lúdica é mais expressiva que a verbal ou então, no mínimo um complemento imprescindível.
Aberastury (1992) afirma que ao brincar, a criança desloca para o exterior seus medos, angústias e problemas internos, denominando-os por meio de ação. Que ela repete no brinquedo todas as situações excessivas para o seu ego fraco e isto lhe permitir, devido ao domínio sobre os objetos externos a seu alcance, torna ativo aquilo que sofreu passivamente, modificar um final que lhe foi penoso, tolerar papeis e situações que seriam proibidas na vida real tanto interna como externamente e também repetir a vontade situações prazerosas.

[...] A maioria das pessoas diria que as crianças brincam por que gostam de o que fazer, e essa é um fato indiscutível. As crianças têm prazer em todas as experiências de brincadeira física e emocional. Podemos ampliar o âmbito de suas experiências fornecendo materiais e idéias, mas parece preferível fornecer essas coisas parcimoniosamente e não em excesso, visto que as crianças são capazes de encontrar o objeto inventar brincadeiras com muita facilidade, e isso dá-lhes prazer.
 É comum dizer-se que as crianças “dão escoamento ao ódio e a agressão” nas brincadeiras, como se a agressão fosse possível uma pessoa livrar-se. Isso é verdade em parte, por que o ressentimento recalcado e os resultados de experiências coléricas ou agressivos podem exprimir-se um meio conhecido, sem pó retorno do ódio e da violência do meio da criança. Um bom ambiente, sentiria a criança, deveria ser capaz de tolerar os sentimentos agressivos, se estes forem expressos de uma forma mais ou menos aceitável. Deve-se aceitar a presença da agressividade, na brincadeira da criança, e esta sente-se desonesta se o que está presente tiver de ser escondido ou negado (WINNICOTT, 1982).
 
No enfoque de Bruner, ele assina-la como relevante nas brincadeiras interativas a ação comunicativa entre a mãe e filho que dá significado ao gesto e permiti à criança decodificar contextos e aprender a falar, ele concebe o lúdico como forma de exploração, estratégia que leva ao pensamento divergente, por sua característica pouco opressora e estimuladora da criatividade.(apud, KISHIMOTO, 1998, p. 142).

As crianças contam as suas fantasias, sonhos e experiências, tanto as recentes quanto às passadas. Ela pode descrever o que pensa a respeito dos pais, professores, amigos ou analista, e pode fazer isso numa conversação comum, ou engajada em um brinquedo. Portanto, ao valorizar as atividades lúdicas, ainda a percebemos como uma atividade natural, espontânea e necessária a todas as crianças, tanto que o brincar é um direito da criança.



A ludoterapia segundo Kishimoto, passou a ser o meio pelo qual as relações ruins da criança seriam recriadas, “consertadas”. Através dos jogos e brincadeiras infantis, a criança poderia simbolizar seus problemas, resolvendo-os em um outro contexto.


A brincadeira permite um extravasar dos sentimentos, auxilia na reflexão sobre a situação, criando várias alternativas de conduta para o desfecho mais satisfatório ao seu desejo.

O ato de brincar com outras crianças favorece o entendimento de certos princípios da vida, como o de colaboração, divisão, liderança, obediência às regras e competição.
 
Portanto, as crianças tendo a oportunidade de brincar, estarão mais preparadas emocionalmente para controlar suas atitudes e emoções dentro do contexto social, obtendo assim melhores resultados gerais no desenrolar da sua vida.


Atualmente, as crianças são muito exigidas em função do mundo em que vivemos: devem saber dominar a informática, falar outras línguas, praticar esportes, tirarem sempre notas altas na escola, serem boazinhas e obedientes, enfim, serem 'eficientes' naquilo que fazem.
           
Estando sempre ocupadas com atividades que precisam cumprir (nem sempre tendo tempo para brincar, jogar, chorar, brigar...), não conseguem SER o que são, isto é, crianças, e sobrecarregam-se para serem aceitas pelos outros.
           
Outras crianças, quando se percebem em meio a conflitos (entre os pais, dentro da escola ou em alguma situação específica), acabam "adoecendo" na tentativa de informar que algo não vai muito bem. Diante tais conflitos, podem se sentir responsáveis por dilemas que não são seus, mas que vivenciam como sendo. 


Tantas responsabilidades podem prejudicar o desenvolvimento sadio da criança. Assim, a criança se perde e, na tentativa de sobreviver ao desencontro consigo mesma, utiliza-se de alguns comportamentos tais quais: agressividade, hiperatividade, angústia, medos, enurese noturna (xixi na cama), ser bonzinho em demasia, ser apegada a adultos, estar sempre doente, reter fezes, desenvolver tiques, dentre tantos outros...


Permitir que a criança se experimente através de brincadeiras, vivenciando sua fase de desenvolvimento com tranqüilidade:
 
De acordo com Junqueira (1999, p.14), o desenvolvimento infantil se encontra particularmente vinculado ao brincar, uma vez que este último se apresenta como a linguagem própria da criança através da qual lhe será possível o acesso à cultura e sua assimilação. O brincar se apresenta como fundamental tanto ao desenvolvimento cognitivo e motor da criança quanto à sua socialização, sendo um importante instrumento de intervenção em saúde durante a infância.

Chiattone (1988, p. 99), se refere ao brinquedo livre, enfatizando:
Apesar do aspecto livre da atividade, as crianças não brincam por brincar, na medida que durante todo o período procuramos conversar, orientar e apóia-la da melhor maneira possível. O próprio brinquedo nos mostra o caminho escolhido pela criança e pelo qual devemos adentrar e trabalhar os conteúdos existentes.
 
As atividades com o brinquedo dirigido são previamente estruturadas e dizem respeito ao trabalho com temas específicos, relacionadas a uma problemática que pode ser individual ou de m grupo de crianças. Estas atividades têm por objetivo facilitar a elaboração de sentimentos de relação a uma determinada questão e elaborar estratégias de enfrentamento. A manipulação do material está diretamente ligada ao momento da vida das crianças e facilita verbalização dos sentimentos encobertos.

"É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação".(WINNICOTT, 1976)


Através do simbólico jogo da brincadeira, a criança irá entender o mundo ao redor, testar habilidades físicas (correr, pular), funções sociais (ser o construtor, a enfermeira, a secretária), aprender as regras, colher os resultados positivos ou negativos dos seus feitos (ganhar, perder, cair), registrando o que deve ou não repetir nas próximas oportunidades (ter mais calma, não ser teimoso). A aprendizagem da linguagem e a habilidade motora de uma criança também são desenvolvidas durante o brincar.


“Freud ensinava que uma criança brinca não somente para repetir situações satisfatórias, mas também para elaborar as que lhe foram traumáticas e dolorosas”. (ABERASTURY, 1992, p.13).


A brincadeira permite um extravasar dos sentimentos, auxilia na reflexão sobre a situação, criando várias alternativas de conduta para o desfecho mais satisfatório. O ato de brincar com outras crianças favorece o entendimento de certos princípios da vida, como o de colaboração, divisão, liderança, obediência às regras e competição.

Segundo Fescher (2005), através do brincar a criança está experimentando o mundo, os movimentos e as reações, tendo assim elementos para desenvolver atividades mais elaboradas no futuro. 
  
Portanto, as crianças tendo a oportunidade de brincar, estarão mais preparadas emocionalmente para controlar suas atitudes e emoções dentro do contexto social, obtendo assim melhores resultados gerais no desenrolar da sua vida.

 
O brincar da criança não é apenas um ato espontâneo de um determinado momento. Ele traz a história da criança, revelando quais foram os efeitos de linguagem e da fala em cada sujeito, sob a forma de um circuito transferencial específico.

O processo de desenvolvimento de cada criança necessita de desencadeares através da linguagem e da fala. Isto quer dizer que, sem linguagem e a fala, os chamados processos de desenvolvimento não serão acionados.

"É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, crianças ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu" (Winnicot, 1975)


Ao pensarmos na importância do brincar no desenvolvimento global, encontramos na literatura que o jogo, seja de que tipo for, é o meio natural da criança se auto-expressar, já que detém a oportunidade de libertar seus sentimentos e descontentamentos, através da utilização do brinquedo. Na psicologia esta interação compõe a ludoterapia.


A criança tem dentro de si potencial e este emerge nas situações de sua vida, e nestes momentos, o indivíduo apresenta ao mundo seu ritmo e sua harmonia. E o brinquedo nada mais é do que a linguagem da criança.


Enquanto Vygoststy fala do faz-de-conta, Piaget fala do jogo simbólico, e pode-se dizer, segundo Oliveira (1997), que são correspondentes.

O brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança (OLIVEIRA, 1997, p. 67), lembrando que ele afirma que a aquisição do conhecimento se dá através das zonas de desenvolvimento: a real e a proximal. A zona de desenvolvimento real é a do conhecimento já adquirido, é o que a pessoa traz consigo, já a proximal, só é atingida, de início, com o auxílio de outras pessoas mais “capazes”, que já tenham adquirido esse conhecimento.


Piaget (1998), diz que a atividade lúdica é o berço obrigatório das atividades intelectuais da criança, sendo, por isso, indispensável à prática educativa (AGUIAR, 1977).

Na visão sócio-histórica de Vygotsy (1989, p. 63), “a brincadeira, o jogo, é uma atividade específica da infância, em que a criança recria a realidade usando sistemas simbólicos”. Essa é uma atividade social, com contexto cultural e social. 

Para Vigostyky apud WAJSKOP (1999, p. 35):

...a brincadeira cria para as crianças uma zona de desenvolvimento proximal que não é outra coisa senão a distância entre o nível atual de desenvolvimento, determinado pela capacidade de resolver independentemente um problema, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da resolução de um problema, sob a orientação de um adulto, ou de um companheiro mais capaz.

O brinquedo da mesma forma que o brincar não é um objeto neutro, pois condensa a história da criança com outros objetos.
 
Lins apud Vygostsky (1989), classifica o brincar em algumas fases: durante a primeira fase a criança a se distanciar de seu primeiro meio social, representado pela mãe, começa a falar, andar e movimentar-se em volta das coisas. Nesta fase, o ambiente a alcança por meio do adulto e pode-se dizer que a fase estende-se até em torno dos sete anos. A Segunda fase é caracterizada pela imitação, a criança copia os modelos dos adultos. A Segunda fase é marcada pelas convenções que surgem de regras e convenções que surgem de regras e convenções a elas associadas.

Vygostsky (1998, p. 109), ainda afirma que

é enorme  a influencia do brinquedo no desenvolvimento de uma criança. É no brinquedo que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva, ao invés de numa esfera visual externa, dependendo das motivações e tendência internas, e não por incentivos fornecidos por objetos externos.

Para Freud (1976), o brinquedo e o brincar são os melhores representantes psíquicos dos processos interiores da criança. Eles estão em significação, na busca do sentido dos atos da criança.

Winnicott (1976), acrescenta que além das significações e sentidos, os brinquedos são também objetos transacionais, isto é, eles se encontram no meio do caminho entre a chamada realidade concreta e a realidade psíquica da criança.

Negrine (1994, p. 20), em estudos realizados sobre aprendizagem e desenvolvimento infantil, afirma que “quando a criança chega à escola, traz consigo toda uma pré-história, construída a partir de suas vivências, grande parte delas através da atividade lúdica”.

Atualmente, muitos estudos são dedicados à compreensão do instrumento lúdico como potencializador do desenvolvimento. Desde o brinquedo utilizado nas pré-escolas em ludotecas, até como instrumento, clínico, em consultórios, o brinquedo tem sido amplamente utilizado, abrindo espaços para discussão e estudos que procuram apontar como este instrumento, típico da fase da infâcia, pode configurar em um objeto de estudo bastante rico.
 
Para alguns autores (Bruner, 1976, 1978; Lagngley, 1985; Rubin;Howe, 1985; Vieira, 1994; Vygostsky, 1994; Winnicott, 1978), o brinquedo é, indiscutivelmente, um veículo que media a relação da criança com o mundo e influencia n amneira de como as crianças se relacionam e interagem.

Para vygostsky (1994), o prazer não pode ser considerado a característica definidora do brinquedo, como muitos pensam. Para o autor, o brinquedo na verdade, preenche necessidades, entretendendo-se estas necessidades como motivos que impelem a criança à ação. São exatamente estas necessidades que fazem a criança em seu desenvolviento.   

Conquanto seja fácil perceber que as crianças brincam por prazer, é mais difício para as pessoas verem que as crianças brincam para dominar angústias, controlar idéias ou impulsos que conduzem à angústia se não forem dominados.

Ao brincar interativamente com os adultos, a criança começa a alterar o curso da brincadeira pelo prazer que dela emana, desenvolvendo então a competência de recriar situações, em uma conduta criativa. Tais brincadeiras contribuem para o desenvolvimento cognitivo. Brincando, a criança vai além da situação na busca por soluções, pela ausência de avaliação ou punição.

A criança se expressa por intermédio de suas brincadeiras, pois é através do ato de brincar que ela elabora seus medos, suas fantasias, suas angústias, isto é, seu mundo interno. A partir da possibilidade de elaboração das brincadeiras, a criança pode elaborar e enfrentar as situações difíceis que vivenciará mais pra frente.

    O encontro da criança consigo mesma é tarefa final da ludoterapia, que é a técnica realizada através do lúdico, das brincadeiras.